Friday, August 25, 2006

vigésima quarta crónica de Wien

Desmontei, encostei a montada ao primeiro poste e decidi-me a explorar a cidade a pé.

Andar a pé pela cidade, seguir pela rua que mais me apetece, sem mapa, sem ninguém sem tempo. Foi como despedir-me de um lugar que afinal ainda não conheço. E foi, na verdade assim, fazendo isto, vagueando, que percebi o pouco que provei desta cidade.

Cada passada… não sei se foi em cada passada que vi isto. Mas a caminhada em geral foi o apanhado da minha estadia aqui. Atravessar um espaço regular, vulgar para quem cá vive e para mim também – como um erro de perspectiva que já é tarde demais para corrigir. É muito bonito. É muito bonita. É diferente. É diferente. Mas não me atravessa. Mas não me atravessa. Sou eu que o atravesso, sou eu que o faço mexer e se paro, pára. Sou eu que a atravesso, sou eu que a faço mexer e se paro, pára.

Esquerda,… direita,… esquerda,… direita,… esquerda,… direita,… esquerda,… direita…

As lágrimas quase me rompiam dos olhos. Estou de partida. E o que mais me prende é o tempo em que estive sozinha com a cidade. O maior tempo de todo o que estive aqui. Foram horas e horas de solidão. De uma boa solidão, talvez. Mesmo entre as ruas, entre a gente, mesmo como agora em que está alguém no compartimento ao lado.

Dormi no Burggarten, lavei-me no lago antes de tudo acordar, só a cidade, o frio e eu. Andavam todos à minha procura mas já não me viram, porque já lá não estava.

vigésima terceira crónica de Wien

Paris pode orgulhar-se da Notre Dame mas nada se compara ao Paternoster no NIG:

(Este espaço seria preenchido por um vídeo näo documental da visita, se soubesse como pö-lo aqui.)

A sensacäo foi: ser Morriz Zapp, perseguido pelo reitor na Universidade de "Rummidge". Ler em: "Changing Places", de David Lodge.

vigésima segunda crónica de Wien

Wir suchen die billigste Pizzeria, wir suchen die de billigsten Friseur, wir suchen die billigste Gelataria und wir suchen enbeso das billigste Fitness-Studio. Oh… aber was wir finden ist alles andere als billig. Selbst das Billigste der Billigen scheint nicht billig zu sein.

Also mixen wir alles zusammen und machen ein Picknick im Park.









3º prémio do concurso organizado pela DeutschAkademie

vigésima primeira crónica de Wien

Costas direitas, calças curtas, ritmo acelerado na pedalada, acidentes vários no percurso a provocar quebras no ritmo e na harmonia. Sem cair, mas quase. Sem atropelar, mas quase. Sem esbarrar, mas quase, quase, quase.

De tanto me rir perco a força e fico para trás. Rio mesmo alto no meio do tráfego. O tráfego acha estranho. O tráfego não entende: o Jacques Tati de bici à minha frente no caminho de regresso a casa e muitas vezes enquanto cá estou.

vigésima crónica de Wien

O campus universitário: passagem fugaz ao princípio da noite.

Podiam ser os claustros de um convento, em ponto muito grande. A perder de vista, tendo em conta as dimensões médias dos claustros. Se calhar tinha árvores frondosas. Se calhar não tinha arcadas. (E talvez isto seja tudo mentira porque passei depressa e já não se via com muita luz – só as montras dos estabelecimentos de apoio ao estudante.) Habitei-o deferente e agasalhada, embora a velocidade e a noite não fizessem supor isso.

Gostava de estudar aqui. É o que me ocorre quando visito algum campus, dos que existem em edifícios antigos. Aqui também. Este foi em tempos o hospital central de Viena. Data e prática corrente misturam-se e legitimam-se: o peso da morte e a vida breve mas que é a vida.

A única pedra não datada, que permanece pertinente, no sentido original é a Narrenturm, a torre dos loucos. Não é sabido se tenha sido construída para os loucos de então ou para os de agora. Não é certo. Permanece actual como as grandes obras.

Não andam por ali muito estudantes porque as férias duram dois meses, mas restam os suficientes para perceber a hálito do lugar.

Saturday, August 19, 2006

décima nona crónica de Wien

WHY PICTURES NOW

“Featuring over 200 individual works, the most comprehensive exhibition of its kind ever to be presented at the MUMOK offers a survey of major contemporary positions in the art media of photography, film and video.”

Num aplicado exercício de síntese elejo o trabalho de um dos artistas: Florian Pumhösl

“Design for a room with more than one video projection’ is a selective city portrait; most of the featured architecture is from the mid-twentieth century. The three video sequences are projected simultaneously on three monitors spread around the room, a cinema-like fixed viewing angle is not identifiable. Uganda’s current capital Kampala was founded in1893 and from 1894 through 1962, it was an English protectorate. This period of Colonial rule left behind a strong social and ethnic separation of the urban structure. The first systematic urban development plans from 1929 focused on the business and administrative center. Many of the
prestigious buildings designed by a local firm of architects could be considered as significant examples of an African modernist style in the transition from colonialism to independence. In 1945, the German architect Ernst May was commissioned by the government of the protectorate to draw up a general plan for the expansion of the city. May designed types of house for Africans, Asians, and Europeans, graded by income, requirements, and residential areas. After the expulsion of Uganda’s Asian population by Idi Amin, their houses, in a style inspired by Le Corbusier, were taken over by African Ugandans. In 1951, May designed the Uganda Museum (now the Uganda National Museum), as well as a residence for the curator. During the civil war of the 1980s, it was plundered several times; having been completely renovated, it is now about to reopened.” (Florian Pumhösl)

Simples, minimalista. De início quase escandaloso: isto também eu fazia! No entanto...

A cada nova situação, na sala, a perspectiva é diferente como seria de esperar. Mas cada perspectiva é inesperadamente diferente do provável. Os ecrãs projectam mas também espelham. Também se espelham. Também me espelham, de vez em onde. A ordem não é ocasional é antes rigorosamente decidida ou afortunada.

A cada nova situação as projecções mudam de degrau na tri-hierarquia. E muda flagrantemente o significado da mensagem.

Friday, August 18, 2006

décima oitava crónica de Wien

Os austríacos são loiros e comem pão preto, para compensar. Eu não mas como na mesma porque é uma delícia e já se sabe como as morenas são gulosas.

Fui às compras, desta feita ao mais banal supermercado. Está tudo à mão de semear: é só pegar, pôr no cesto e olhar para o ecrã da máquina registadora para saber a quanto fica. Não exige nenhuma comunicação verbal, a menos que se vá comprar pão.

O pão tem que se pedir e não é fácil. São muito variados e é preciso fazer uma escolha. Também não é fácil. Estão ordenadinhos, e etiquetados com o nome: an-do-li-tá, cara de amendoá, quem está livre, livre está. Li o nome do eleito e pedi.

A senhora olhou-me com ar descrente: não temos disso cá. E ficou à espera de nova instrução minha. Apontei com o dedo e disse: huumm, huumm. Lá nos entendemos. Deu-me dois à escolha e explicou-me a diferença. Eu sorri, e disse convictamente: Ja!; Ela deu-me o maior. Metade! Half! – tentei. Ao que voltou atrás e pôs o pão inteiro num saco de papel.

Consegui comprar o pão certo, fiquei depois a saber. E tenho um tamanho extra para comprovar.

siebzehnten crónica de Wien

Compras de manhãzinha no Naschmarkt: Sábado fui ao mercado, Sábado fui “mercar”, encontrei um burro morto para o primeiro que falar.

Os vendedores vendem e apregoam, os clientes circulam desordenadamente nas fisgas entre as barracas e às vezes compram. Devagar, devagar, aos encontrões com muitos “entschuldigung” e palavras brutas.

Lá vou, tomando tempo para apreciar os legumes e frutas novos, os artigos desconhecidos, as coisas que estou acostumada a ver mas em estabelecimentos de outro feitio, a maneira diversa de empilhar a mercadoria, os pregões de cabelos loiros.

Começa a chover. As barracas são verdes e têm toldos que se estendem sobre os corredores, mal começa a pingar. O mercado é mais íntimo assim, menos iluminado. O mercado é de uma situação singular, um dia preciso, uma perspectiva que já não volta a ser a mesma. E não sei se a sei contar.

Numa das bancas um miúdo de 14 anos vende frutas secas e cristalizadas. Tem o ofício no corpo e na voz, uma espécie de desembaraço quando pega na pinça de serviço. Chama e oferece um pedaço vermelho a quem passa. Pergunta ao freguês se… não é o melhor que já sentiu no gosto? E com isto parece fazer crer que açúcar é mais que doce, que fruta é mais que mirtilo ou uva.

Vende sacos cheios de cubinhos secos, de néctar doce, doce. E nos intervalos disto olha para o lado, onde a família graúda vende legumes e, se ninguém olha, petisca com um gesto furtivo, tirinhas minúsculas de ananás.

Também havia um italiano a apregoar melancia vinda “da terra”… como é que ele dizia?

Thursday, August 17, 2006

décima sexta crónica de Wien

Se näo escrevo tanto é porque tenho tido muito sobre o que escrever.

Tuesday, August 15, 2006

décima quinta crónica de Wien

Até ao instante presente, aquilo de que menos gosto em Wien é do Verão: chuva, frio e eu encolhida, apesar das quatro camadas, duas camisolas interiores, uma camisola de lã e um kispo impermeável.

E quando chove mesmo muito, como hoje, ainda há que aturar os banhos forçados. Os automóveis passam pela bicicleta, sem abrandar e, se calha haver uma poça ali estou feita. Fico ensopada para o resto do dia.

Saturday, August 12, 2006

décima quarta crónica de Wien

Até ao instante presente, aquilo de que mais gosto em Wien são as escadas rolantes. Suba ou desça viajo sempre um degrau acima de Bonina. Mal começa a viajem, colo os meus lábios aos dele e só (des)largo quando o primeiro tropeça na saída.

Não é uma maravilha?

décima terceira crónica de Wien

12h00: partida internacional de voleibol de “areia” – porque não era uma praia, mas um dos inúmeros campos que se espalham pela cidade. E também há campos de basquetebol, futebol, pistas de corrida, ringues para skates e patins… o paraíso. Hum…

Organizei um jogo de Voleibol com alguns amigos do curso de alemão e outros amigos e amigos de amigos.

Equipa 1: três austríacos bem treinados e conhecedores da arte de bem jogar.

Equipa 2: dois turcos, uma romena e eu, dos quais três eram estreantes na lide.

Depois de um sete a (21 – 00) resolvemos parar para aprender o serviço, a manchete e o passe. Só para ver como é que se fazia, que estas coisas levam o seu tempo. E não é que resultou! Rapidamente equilibrámos um pouco mais o jogo.

Eles ganharam, é verdade, mas os prémios para “maior originalidade”, “voos artísticos”, “acrobacia arriscada” e “cara na areia” não nos escaparam. O único que perdemos foi o prémio “ataque ao colega de equipa”, pertencente ao elemento masculino da equipa adversária. E não foi a brincar, foi a contar.

décima segunda crónica de Wien

* Prater *

Gosto de deslizar por estes lugares tal como gosto de assistir ao espectáculo de circos pobres, escondida debaixo da bancada. Com tudo o que isso possa ter de festivo e decadente: o cheiro a algodão doce, a pele dos balões rebentados espalhando-se pelo chão, os animais encerrados em jaulas para a gente ver antes da festa começar e o brilho deles na arena, sem brilho no pelo.

Encanta-me com tudo o que tem de festivo, decadente e humano.

Eis um espaço inventado para as pessoas se desenfadarem, um lugar de alegria. Um sorriso falso, ou um ”ai!” mal fingido também cabem, vale tudo para que sejamos felizes: a felicidade de uns à custa da de outros, à custa de cabos e dobradiças de metal empastadas de óleo, de salsichas e cerveja…

… e a dolência de percebermos que é mesmo isso, que somos as pessoas mais infelizes que pode haver e que isso sabe tão bem. E que, se subimos à roda gigante, não é com certeza para nos atirarmos de lá abaixo. É porque, se olharmos lá de cima , de onde se vê ao longe (e por isso não se vê bem) só se vê o bem.

Sentei-me na prateleira de uma barraca de feira, toda espelhada, no lugar do brinde principal. Rodeada de peluches, balões e fantasias. Distinguiam-me bem, porque era a mais iluminada: “Oh, que beleza cintilante, rodeada de flashes intermitentes variadamente coloridos, em sua cercania!” – ouvia-se (em alemão, claro!).

Veio um demónio do comboio fantasma, montado num carrinho de choque e reclamou o prémio, no jogo de tiro. Levou-me. Mas logo, um encantador dinossauro saído de outro carrossel veio montado num pónei branco, prontinho para me comer. Alto e pára o baile: a zona dos restaurantes é um pouco mais à frente! Resolvida a questão só tive que me livrar do demónio, montar a bicicleta e fazer um assalto ao comboio a vapor.

Thursday, August 10, 2006

décima primeira crónica de Wien

Os gelados na “Paolo Bartoloti” são melhores que na “Zanoni und Zanoni”. E, valha-me o deus Santini, se não tenho razão.

- Ich möchte ein Joghurteis, bitte!
- Hier, bitte.
- Danke.
- Hat’s geschmeckt?
- Ja, köstlich. Oder, nein… SPITZE!

Dispenso a bolacha. Enche-me um copo: hoje vai ser sabor a iogurte, como sempre. E depois posso escolher a cor da colher a combinar. Branco vai bem com tudo. Hhhmmm!

Viva a Itália, mesmo no centro de Wien!